7 razões para não investir em Design Thinking

Esses dias, um amigo consultor estava me contando do sufoco que passou em um de seus treinamentos de Design Thinking (DT), em uma organização de grande porte: os gestores presentes jogaram contra, defendendo “verdades” corporativas, inibindo a criatividade das equipes e até se recusando a participar de certas dinâmicas. O meu amigo até conseguiu virar o jogo no segundo dia, mas saiu com a suspeita de que a empolgação da turma seria esvaziada nos próximos dias de trabalho.

Histórias assim não faltam em rodas de consultores: outra foi em uma empresa que tinha contratado um programa de capacitação baseado em DT. A turma logo se animou com a perspectiva de inovar, buscar novos pontos de vista, pensar na experiência do cliente além das fronteiras do seu departamento. Mas, assim que o cliente percebeu para onde aquela brincadeira estava rumando, pediu adaptações que transformaram o programa em uma sequência de projetos convencionais, seguros, dentro das regras e modelos estabelecidos.

A terceira situação, mais tensa, foi em um workshop aplicado em uma organização, sobre outro tema – mas usando algumas técnicas do DT. No primeiro dos dois encontros, a turma foi estimulada a se abrir e repensar como e por que eles trabalhavam no dia a dia, levando em conta as mudanças que estavam por vir. Tudo dentro do briefing e do roteiro validados pelo cliente, é claro. Acontece que, no fim do primeiro dia, um executivo fez uma visita-surpresa e ficou indignado com alguns problemas debatidos pela equipe. A situação acabou sendo contornada, mas o “recado” da direção foi dado.

O que esses três casos têm em comum?

  • As empresas adquiriram algo sem entender do que se trata. Inovação e Design Thinking estão em voga? Vamos trazer! Estão falando em intraempreendedorismo e transformação digital? Pronto, treinamentos comprados! O problema é que essas disciplinas requerem uma cultura receptiva a determinados comportamentos, pontos de vista e modelos de negócios. Não são “plug-and-play”.
  • Faltou alinhamento prévio com os gestores. Quanto maior a empresa, mais difícil é garantir que as pessoas certas estejam bem informadas e à vontade com o programa de um treinamento. Às vezes, um gerente médio centraliza a interlocução para agilizar, informando seu diretor superficialmente; ou o RH toma decisões por conta própria, porque seu cliente interno não tem um olhar humanizado ou do todo. O resultado, por melhor que seja a intenção, pode ser um tiro no pé.
  • Treinamento em inovação é diferente de treinamento inovador. Nem toda organização quer ou precisa se reinventar. Existem inúmeras demandas de treinamento técnico, estratégico e até comportamental que não passam pela inovação como disciplina – mas podem ser atendidas de forma criativa e inovadora. A encrenca começa quando a empresa confunde as coisas e encomenda, por exemplo, um workshop de DT como se fosse um método novo de fazer o trabalho de sempre.

Bom, e o que você tem a ver com tudo isso? Se está lendo este artigo, é porque tem algum interesse em Design Thinking, mesmo que pura curiosidade. Talvez até já cogite levar essa abordagem de inovação para a sua empresa, na forma de um workshop, projeto-piloto ou grupo de trabalho. Existem muitas razões para você seguir adiante (eu torço por isso), mas o objetivo deste artigo é questionar se este é o lugar e o momento certo.

Então, vamos a alguns cenários hostis à introdução do Design Thinking:

  1. Risco zero: todos nós temos algum nível de aversão ao risco, mas a sua empresa está no extremo conservador dessa régua. Ideias ousadas raramente são levadas a sério, e o histórico de bons resultados reforça o argumento de que “em time que está ganhando, não se mexe”.
  2. Faca na caveira: colaboração e parceria são termos repetidos em reuniões, mas o que mais se vê são puxadas de tapete, guerra de egos e projetos sabotados por conta de disputas políticas. Para completar, os gestores estimulam a competição desenfreada entre colaboradores – valorizando a inteligência competitiva em vez da inteligência colaborativa.
  3. Condenação do erro: quem comete um deslize na empresa sabe que vai pagar o preço, ficando “encostado” por um tempo, perdendo projetos ou até o emprego. Você já soube de colegas que até foram ridicularizados porque não bateram metas.
  4. É pra hoje: é importante olhar para os números do próximo mês ou trimestre, mas parece que esse é o único horizonte que conta na sua organização. Projetos de médio e longo prazos ou não são aprovados ou acabam cancelados no meio do caminho.
  5. Na ponta do lápis. A direção é tão focada em números que ignora qualquer defesa de benefício intangível ou método não baseado em planilhas e pesquisas quantitativas. Você não consegue se imaginar falando em “design centrado no ser humano”, “experiência do cliente” ou “empatia como ferramenta de negócios” para os decisores da empresa.
  6. Reverência à autoridade: a hierarquia é rígida, ninguém questiona abertamente um superior, tudo funciona no esquema top-down, e você já ouviu diretor ser chamado de “doutor” (mesmo não sendo médico e nem PhD).
  7. Dom Quixote: você ainda não encontrou nenhum aliado interno para fazer um test-drive de DT. Quem você sondou não demonstrou interesse ou achou que a ideia é “abraçar árvore”, brincando de encher paredes de post-its.

Se você enxergar o seu departamento ou organização em um ou mais tópicos acima, pare para pensar. Converse com colegas de confiança, procure saber sobre iniciativas parecidas no passado, reveja a sua estratégia. Na melhor das hipóteses, você vai avançar com mais convicção; na pior, pode pisar no freio até encontrar as condições e os aliados certos para retomar a “venda” do DT na empresa.

Ah, é claro que existe um meio-termo: comece por testes em projetos pequenos, dentro da sua alçada. Depois de algum tempo, você poderá apresentar os resultados desses experimentos para, aí sim, conquistar apoio para uma iniciativa mais ousada. O importante é avaliar qual o tamanho do passo que você pode dar, levando em conta a cultura e o contexto da sua empresa, para não queimar cartucho.

Boa sorte e até breve! 😉

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